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Saúde - Tecnologia - 2 semanas atrás

Ecologistas fomentam dúvidas sobre segurança do 5G para adiar implantação da rede na França

Por – RFI (Adriana Moysés)
A duas semanas do início dos leilões de atribuição de frequências da rede 5G na França, opositores dessa tecnologia de telefonia móvel, apontada como “revolucionária”, pedem uma moratória ao governo. Em uma carta aberta publicada neste domingo (13) no Journal du Dimanche (JDD), 68 prefeitos e parlamentares ecologistas e de esquerda defenderam um novo adiamento dos leilões, alegando que não existem estudos suficientemente abrangentes sobre o impacto ambiental de instalação da nova rede ultrarrápida e seus potenciais efeitos para a saúde.

Os principais opositores e signatários da carta aberta são os recém-eleitos prefeitos ecologistas de Bordeaux, Estrasburgo, Lyon, Tours, Poitiers, Marselha, Grenoble e Besançon, apoiados por colegas socialistas e deputados de extrema esquerda do partido A França Insubmissa, do líder oposicionista Jean-Luc Mélénchon (LFI). O eurodeputado e presidenciável Yannick Jadot, do partido Europa Ecologia Verdes (EELV), também assinou o manifesto.

A esquerda quer que o governo adie os leilões previstos no fim do mês, para dar espaço a um debate público sobre os usos da nova tecnologia. “Não dá para dizer que o 5G é uma revolução digital que vai transformar nosso estilo de vida, nossas formas de trabalhar, nossas empresas, e não ter um debate público sobre quem se beneficiará com esta tecnologia”, disse o eurodeputado francês. Ele afirmou estar convencido de que o 5G poderia contribuir à transição ecológica em determinados setores. “Mas se for para ser implantado, deve ser feito por empresas europeias e não por empresas chinesas ou mesmo americanas”, destacou.

“A partir do momento em que pode haver uma ameaça à saúde pública”, devemos “obter as informações necessárias para saber se existe perigo ou não”, defendeu também o ex-candidato socialista à presidência, Benoît Hamon.

Os verdes foram os grandes vencedores das eleições municipais de junho e buscam pavimentar o caminho para disputar a eleição presidencial de 2022. Eles querem atrair eleitores decepcionados com as políticas sócio-liberais do presidente Emmanuel Macron e propõem uma agenda ambientalista sem concessões. Para se firmar como força de oposição, alguns prefeitos ecologistas e membros da esquerda não têm hesitado em semear dúvidas na população, às vezes próximas de teses conspiracionistas, no caso do 5G, e têm abusado de frases de efeito. Recentemente, o prefeito verde de Grenoble, Eric Piolle, disse que a conexão 5G, dez vezes mais veloz do que a atual 4G, “só vai servir para assistir vídeos pornográficos no elevador”.

Autoridades do governo reagiram acusando os verdes de “reacionários”. O ministro do Comércio Exterior e da Competitividade, Franck Riester, disse que os ecologistas adotaram uma postura “sectária”, fundada no “rechaço ao progresso”. “Nós devemos nos manter firmes e determinados a apoiar a inovação, buscar o progresso tecnológico e melhorar a qualidade de vida dos franceses”. Já o ministro da Economia, Bruno Le Maire, reiterou que adiar a implantação da rede 5G seria “um erro dramático”. “Não vamos dar este presente aos nossos adversários ou aos nossos rivais econômicos [leia-se China e Estados Unidos] para atrasar a implantação da 5G”, declarou Le Maire nesta segunda-feira (14). Ele insistiu que o novo sistema trará avanços na área médica, na gestão dos fluxos de energia e na gestão dos transportes, entre outros benefícios.

Considerando os impactos sociais, econômicos e políticos que a implementação dessa conectividade revolucionária terá nos próximos dez anos, vários think tanks surgiram em todo o mundo para avaliar as implicações do 5G. No caso dos europeus, como o bloco acumula um atraso em relação ao que a China e os Estados Unidos já desenvolveram, aumentou a pressa em acompanhar a virada tecnológica. Desde que a China escancarou suas ambições expansionistas, os europeus assumiram um posicionamento cauteloso sobre a questão da soberania digital e passaram a defendê-la, diminuindo o espaço de atuação da gigante chinesa Huawei no mercado local.

Progresso abstrato e dependência digital

A nova geração de redes móveis permanece abstrata para muitas pessoas. Os especialistas dizem que o 5G vai permitir uma interação mais ampla com as coisas que nos rodeiam. As quatro dimensões frequentemente citadas são a velocidade de conexão dos celulares à internet, que será cerca de dez vezes mais veloz do que a atual 4G; a capacidade de transmissão dos dados (a maior potência da rede permitirá que mais pessoas possam se conectar ao mesmo tempo sem provocar perda de velocidade); a estabilidade nas conexões, evitando as quedas de sinal; e um menor consumo de bateria, graças às especificações impostas aos operadores no desenvolvimento dos equipamentos.

Mas os detratores do 5G na França alegam que a nova tecnologia vai aumentar o consumo de energia, e por consequência agravar o aquecimento global, aprofundar desigualdades territoriais e ampliar a dependência digital. No espectro oposto, seus defensores evocam benefícios para a indústria, com o desenvolvimento de uma nova safra de objetos conectados que vão facilitar a vida das pessoas, criar os empregos do futuro e até ajudar o planeta. Os críticos também acenam com “potenciais riscos para a saúde”, pela radiação das ondas magnéticas das novas antenas e de estações de base da rede, mas este receio parece injustificado, uma vez que não há evidências científicas até o momento de que a radiação eletromagnética provoque danos cerebrais ou à saúde dos usuários de celular e vizinhos de antenas de transmissão.

Para Frédéric Bordage, especialista digital independente e membro do grupo de especialistas GreenIT, esta corrida pelo 5G tem objetivo estritamente econômico e geoestratégico. “O mundo econômico quer se mover muito rapidamente para implantar o 5G, porque ele é um motor de crescimento. A venda de smartphones está se estabilizando, e o 5G será útil para desenvolver o negócio dos objetos conectados. Existe um consenso na Europa, tanto nas empresas quanto entre ministros da Economia ou Finanças que a nova tecnologia vai gerar atividade e empregos no futuro.” Ele cita, por exemplo, a chegada de novos operadores de telefonia ao mercado do bloco. “Mas isso só acontecerá mais tarde, já que os primeiros usos do 5G serão industriais”, afirma.

O especialista, entrevistado pela RFI, destaca que a atual rede 4G atende às necessidades do dia a dia das pessoas, enquanto a utilização do 5G vai otimizar sobretudo a atividade industrial e militar, com a robotização e a criação de novos produtos conectados. “Atualmente, o 4G é suficiente para as necessidades diárias dos usuários, como se informar pela internet, pagar uma conta no banco, comprar passagens aéreas ou de trem, fazer compras online, pagar o estacionamento. A tecnologia 5G, em termos concretos, é inútil na vida cotidiana”, opina o especialista.

No entanto, o aspecto de criação de novas demandas, na contramão do esforço que deve ser feito para reduzir o consumo individual, a poluição e seus impactos sobre as mudanças climáticas, é um dos argumentos dos ecologistas franceses contra o 5G.

O sociólogo Dominique Boullier, professor da universidade Sciences Po e pesquisador do Centro de Estudos Europeus e Política Comparada, está entre os estudiosos que nutrem uma desconfiança quanto à pretensa “ditadura do atraso”, ouvida nos últimos dias entre os defensores do 5G.

Em entrevista à rádio France Info, Boullier salientou que implementar o 5G é principalmente um imperativo industrial. “As empresas querem vender novos PCs e equipamentos integrados, e com isso relançar a corrida por uma suposta inovação”, afirma.

“Quando as autoridades alegam que a tecnologia de quinta geração vai ser útil para a realização de cirurgias e outras proezas médicas, claro que esse argumento torna-se imbatível. Mas as consequências do 5G não se resumem a isso, pois existe o aspecto do controle da vida privada e a exposição exagerada às imagens e aos equipamentos da rede, que ainda não se sabe o que irão representar para as gerações futuras e que efeitos terá sobre a saúde”, alerta. “Há sempre uma urgência, quando poderíamos muito bem colocar as coisas sobre a mesa e nos dizer por que realmente precisamos dessa tecnologia e de que maneira ela deve ser usada”, diz o sociólogo.

Segundo Boullier, apesar de o governo francês afirmar que um dos objetivos da nova rede é melhorar a cobertura de internet nas zonas rurais, ele suspeita que as desigualdades de conectividade não vão dasaparecer do território. “As vantagens do 5G são sobretudo a velocidade no uso da internet e a estabilidade das conexões, sem queda de sinal. Mas essa melhoria ficará restrita a algumas áreas”, suspeita. Ele defende uma regulamentação mais rigorosa do novo sistema, para contemplar especificações ambientais, territoriais e de segurança.

Os leilões destinados a alocar frequências móveis 5G para operadoras de telecomunicações francesas estão previstos para 29 de setembro. Eles devem render um total de pelo menos € 2,17 bilhões ao Estado. A agência reguladora Acerp, autoridade administrativa independente (AAI) criada para garantir a regulamentação dos setores de telecomunicações eletrônicas e redes, pretende atribuir frequências remanescentes de 110 MHz, após a distribuição dos quatro primeiros blocos de 50 MHz a cada um dos quatro operadores concorrentes (por um valor unitário de € 350 milhões).

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