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Esportes - Imigração - Política - 3 semanas atrás

Humilhada pela imigração nos Estados Unidos, lutadora brasileira de Jiu-Jitsu relata drama

A negação de sua entrada nos EUA, todavia, foi apenas o começo de um dos piores traumas da vida de Sábatha, conforme ela mesmo relatou.

Por Diogo Santarém

O que era para ser um sonho, virou pesadelo. Faixa-preta da equipe Ryan Gracie, a brasileira Sábatha Lais (Click para Instagram) se preparava para disputar o Mundial de Jiu-Jitsu da IBJJF – maior campeonato da modalidade e que é realizado anualmente na Califórnia, Estados Unidos – pela quarta vez seguida. Porém, em 2019 a história foi diferente. Com passaporte certo e visto em dia, ela viajou até lá, chegou em Los Angeles e foi barrada na imigração.

A negação de sua entrada nos EUA, todavia, foi apenas o começo de um dos piores traumas da vida de Sábatha, conforme ela mesmo relatou. Em entrevista exclusiva à TATAME (click aqui), a lutadora relembrou o drama vivido no fim de maio e contou detalhadamente tudo o que passou durante o período de 20 horas em que ficou presa em uma sala no aeroporto, até ser colocada em um avião que passou por Santiago (CHI) antes de chegar ao Brasil, sempre escoltada por oficiais e impedida de falar com amigos ou familiares.

“Chegando nos Estados Unidos, naquela primeira triagem da imigração, eu já fui pega. Me fizeram as perguntas normais e disseram que eu precisaria falar com um oficial. Então, me levaram para uma sala que já é da imigração. Lá esperei por uns 40 minutos até falar com um oficial. Ele me chamou e fez as mesmas perguntas. Respondi tudo. Disse que estava indo lutar o Mundial de Jiu-Jitsu, e ele falou que não, que era mentira. Eu falei que tinha como provar, que tinha inscrição feita, tudo certinho. Ele pediu para ver, eu entrei no meu e-mail e mostrei a confirmação da IBJJF, registros, etc. Nisso ele pegou meu celular e travou. Me deu um papel escrito que estava pegando meu celular para averiguação e me dispensou da sala onde eu estava. Depois de algumas horas me chamaram de volta, sendo que eu via eles o tempo todo mexendo no meu celular enquanto isso. Aí me levaram para uma sala dentro da primeira sala que eu fui. Lá já começou o terror. Retiraram tudo de mim. Pegaram minha mala, contaram meu dinheiro, me revistaram e me deixaram lá. Na sala só tinha água, um banheiro horrível e uma cama tipo ‘Médico sem Fronteiras’, com mulheres dormindo. Era uma sala muito fria… Ali, vendo aquela situação, já imaginei que eu estava ferrada. Durante o tempo que fiquei lá me chamaram várias vezes para responder as mesmas perguntas, mas faziam de forma diferente para ver se eu cairia em contradição, e nessa fiquei durante 20 horas de indas e vindas”, disse, complementando.

“Eles (oficiais) são extremamente grossos, extremamente hostis. Em um dos momentos da entrevista o oficial me chamou e falou em espanhol até, ‘olha, parabéns’. Achei que ele estava me zoando, perguntei a razão dos parabéns, e ele falou: ‘Eu vi as suas lutas, olhei no seu celular, no YouTube, você luta muito bem, parabéns’. Nessa hora não contive a emoção e chorei, tentando um último pedido para ir lutar, mas o oficial olhou na minha cara e disse ‘não, você não é bem-vinda no meu país’. Foi um golpe muito duro”.
Devido ao atual cenário político nos Estados Unidos, o visto para entrar no país tem sido cada vez mais difícil de se tirar, seja você atleta ou não. A história é antiga, entretanto, neste Mundial de Jiu-Jitsu ficou ainda mais escancarada, com diversos lutadores sofrendo com os vistos negados, além de muitas reclamações nas redes sociais, como por exemplo do projeto voltado para jovens atletas “Dream Art”, liderado pelo faixa-preta Isaque Bahiense em São Paulo. Mas para Sábatha, infelizmente, o buraco foi ainda mais embaixo.

“Na volta me colocaram em um voo que eles escolheram, de qualquer jeito, com uma escala enorme. Eu fui de lá (Estados Unidos) para Santiago (CHI), e depois para o Brasil. Me avisaram que eu seria deportada e devolveram só minha mala de mão e carteira. Dentro de um envelope com eles ficaram meu celular, passaporte e a documentação que me fizeram assinar. Três oficiais me escoltaram até a porta do avião para Santiago, uma humilhação que já não cabia dentro de mim. Chegando no Chile achei que havia acabado, mas tinha um oficial da Polícia Federal de lá me esperando. Novamente fiquei aguardando o trâmite, tiraram foto de tudo, e ai fui acompanhada até a entrada do voo para São Paulo. Porém, não devolveram minhas coisas. Chegando em São Paulo não foi diferente… Mais dois oficiais estavam me esperando para entender o que tinha acontecido, o que eu tinha feito. Me levaram até a imigração, onde eu expliquei tudo. Tinha só uma delegada de plantão no aeroporto de Guarulhos, ela não quis descer para conversar, então o oficial foi lá em cima, conversou, e ela (delegada) liberou meu celular e passaporte. Fiquei quase duas horas esperando, isso na minha casa, meu país, passando pela mesma humilhação, como se já não fosse o bastante nos Estados Unidos e no Chile, aqui também”, desabafou.

O trauma, segundo a faixa-preta, foi grande. Não apenas do ponto de vista financeiro e psicológico, como também em relação ao campeonato. Após uma grande participação no Brasileiro de Jiu-Jitsu, que aconteceu em maio, em Barueri (SP), onde ela chegou na final do peso e do absoluto, Sábatha era uma das favoritas ao ouro na Pirâmide de Long Beach.

“Eu nunca tinha passado por isso, nem perto, foi a primeira vez. Já tinha ido três vezes para o Mundial e nunca tinha acontecido isso comigo. De trauma foi um dos piores que já me aconteceram. A situação, depois de algumas horas lá e aquela coisa nervosa, você sem entender o que está acontecendo, como agir, você começa a ter medo, né, muito medo. A gente estava na sala, uma hora entrou um oficial xingando, com palavras de baixo calão, tanto para os homens quanto para as mulheres. Hostilizando a gente, e a maioria sem entender o motivo de estar ali. É uma coisa que nunca vai sair da minha cabeça”, garante.

Agora mais calma e de cabeça fria, Sábatha tenta somar os prejuízos, segundo ela “incalculáveis”. O próximo passo é buscar meios legais para, de alguma forma, amenizar sua perda. “Agora já estou conseguindo digerir melhor tudo o que aconteceu, mas fica o sentimento de frustração, de indignação. É um campeonato que esperamos um ano, tem preparação, investimento, tudo… Eu consegui meios para ir, que é o mais difícil, viver como atleta hoje, então conseguir chegar até lá e ser retirada dessa forma é terrível”, falou, revelando ainda que entrou em contato com um advogado para analisar a situação.

“Eu já levei para um advogado da minha confiança para ele estudar e ver o que dá para ser feito, mas isso também não vai amenizar a minha frustração de não poder estar no campeonato que eu esperei tanto para lutar. O peso de estar fora é incalculável. Só Deus sabe o tanto que eu queria, o tanto que eu me preparei. É muito difícil…”, encerrou.

Apesar da situação trágica, o caso de Sábatha Lais não foi o primeiro e certamente não será o último. De olho no futuro, a lutadora brasileira agora volta seu foco em recuperar as lesões no joelho para em breve retornar aos tatames e fazer o que ama: lutar Jiu-Jitsu.

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