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Imigração - Internacional - 09/04/2018

Movimento de esquerda adota parte do discurso anti-imigração na Alemanha

Em uma Alemanha na qual os eleitores de esquerda estão cada vez mais desconcertados com a coalizão entre o partido de centro-direita da chanceler Angela Merkel e os social-democratas, o novo movimento pretende recolocar os temas sociais no centro dos debates, sem ignorar a questão migratória.

Um novo movimento de esquerda, que adota elementos do discurso anti-imigração, nasce nesta terça-feira (4/9) na Alemanha, onde o crescimento da extrema-direita está modificando o cenário político. O movimento “Aufstehen” (“De Pé”), liderado por Sahra Wagenknecht, figura importante do partido de esquerda radical Die Linke, quer atrair os eleitores decepcionados com a esquerda tradicional, que recebeu menos de 40% dos votos nas eleições de 2017 e que viu parte de seu eleitorado optar pelo partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD).

Para seu projeto, Wagenknecht, 49 anos, tem o apoio do marido esposo, Oskar Lafontaine, ex-integrantes do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) que foi ministro das Finanças por quatro meses, de outubro de 1998 a abril de 1999, no governo do chanceler social-democrata Gerhard Schröder. Lafontaine renunciou ao governo por oposição à guinada liberal de Schröeder. Mais tarde saiu do SPD e em 2007 fundou, ao lado de outros políticos, o partido Die Linke.

Sahra Wagenknecht, acostumada às posturas heterodoxas em sua família política, apresentará o movimento nesta terça-feira em Berlim. Ela não hesita em defender a memória da Alemanha Oriental ou a Rússia de Vladimir Putin, nem em criticar a União Europeia (UE).

No momento, o “Aufstehen”, que afirma ter 85.000 simpatizantes registrados na internet, não tem a intenção de virar um partido político. De fato, o movimento tem dificuldades para atrair figuras da esquerda.

Em uma Alemanha na qual os eleitores de esquerda estão cada vez mais desconcertados com a coalizão entre o partido de centro-direita da chanceler Angela Merkel e os social-democratas, o novo movimento pretende recolocar os temas sociais no centro dos debates, sem ignorar a questão migratória.

Com seu estilo incisivo, Wagenknecht, uma das líderes da bancada do Die Linke no Parlamento, multiplica as críticas ao que considera “ingenuidade” da esquerda sobre a imigração.  Em 2016, após o atentado de Berlim reivindicado pelo grupo Estado Islâmico, criticou a “abertura sem controle das fronteiras”.

Também questionou o “direito à hospitalidade” que beneficiou muitas pessoas, em sua maioria da região do Magreb, que cometeram agressões sexuais em 31 de dezembro de 2015 em Colonia.

Com a decisão de Merkel de abrir, em setembro de 2015, as fronteiras aos refugiados, “muitos problemas sociais” se aumentaram, afirma a ex-integrante do Partido Comunista da Alemanha Oriental.  O movimento “De Pé” mira em particular o leste do país, onde ficava a República Democrática Alemã (RDA), nome oficial da Alemanha Oriental.

Várias regiões do leste devem renovar suas Assembleias em 2019 e as pesquisas apontam um novo crescimento da extrema-direita, que nas legislativas de 2017 conseguiu 20% dos votos nesta parte do país, oito pontos percentuais acima da média nacional que foi de 12%.

O movimento afirma que deseja frear o avanço do AfD.

“Olhem o que acontece na ex-Alemanha Oriental: o AfD se tornou o partido dos trabalhadores e dos desempregados. Isto nos obriga, na esquerda, a pensar onde fracassamos”, disse Lafontaine.
Apesar da retórica que soa parecida, existem diferenças entre Sahra Wagenknecht e a extrema-direita.

“O AfD diz ‘tudo para os alemães, fora estrangeiros! Wagenknecht não fala isso, defende o direito de asilo e não ataca o islã”, explica Gero Neugebauer, da Universidade Livre de Berlim.
Mas o discurso de Wagenknecht não é bem recebido entre a esquerda de tradição internacionalista. Ela chegou a ser vaiada em um congresso do Die Linke em junho.

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