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Editorial - Mundo - 07/23/2021

Editorial da edição 1.445: O duro teste da democracia brasileira

Não há um dia sequer desde o início do atual governo em que não surjam novos fatos envolvendo ameaças veladas ou abertas de golpe, de intolerância, com as devidas negativas de praxe

Jehozadak Pereira
Tem gente que até hoje pensa que Donald Trump perdeu a eleição por causa da crise originada pela pandemia. Não, Trump perdeu a eleição porque saturou a democracia americana e pensou que isto bastaria para garantir-lhe mais quatro anos na Casa Branca.

O eleitor americano preferiu eleger um político fraco a se sujeitar a mais quatro anos de estridência e desatinos. Por isso mandou Trump para casa, a despeito dele ter tentado de todas as formas e modos conspurcar a democracia dos Estados Unidos, inclusive promovendo uma sedição de seus devotos que caíram no conto da eleição fraudada, que só existiu na cabeça de Donald Trump.

Durante o seu período de governança, não houve um dia sequer em que não acontecesse algo novo, de preferência contra o sistema estabelecido. Por causa da tradição e do sistema de pesos e balanços, a democracia americana resistiu bravamente e não deu a menor chance de que Trump pudesse sequer pensar em permanecer.

Logo, o caminho para casa e para o ostracismo foi o que restou a Trump. Mas qual é o paralelo disso com Jair Bolsonaro e a democracia brasileira? A exemplo de Donald Trump, não houve um dia sequer em que as instituições brasileiras não tenham sido testadas no limite por Bolsonaro, que criou uma narrativa perversa de que a eleição presidencial no ano que vem poderá ser fraudada, caso não haja o voto auditável.

Acontece que o voto no Brasil é auditável. A questão para Bolsonaro é criar problema a qualquer custo e se o voto fosse impresso, Bolsonaro iria querer urna eletrônica. Ou seja, ele quer é uma desculpa para promover uma bagunça ou quem sabe no limite dar um golpe, que é o seu sonho de consumo desde que tomou posse. Os personagens ou personalidades como queiram são os mesmos de sempre, com Jair Bolsonaro na frente de tudo e acima de todos, o famigerado Centrão, com quem o presidente um dia jurou que jamais se aliaria, mas que acabou capitulando.

Não há um dia sequer desde o início do atual governo em que não surjam novos fatos envolvendo ameaças veladas ou abertas de golpe, de intolerância, com as devidas negativas de praxe. Nada escapa da turma de Bolsonaro, ataques a tudo e a todos sem esquecer do Supremo Tribunal Federal (STF), o comunismo, a esquerda, a cansativa exaltação da ditadura militar, o negacionismo, o descrédito consciente da ciência e o desmonte da educação, os constantes ataques contra a imprensa entre tantas outras patifarias promovida por Bolsonaro e sua gente. A mais recente crise provocada foi com a ameaça do general Walter Braga Netto, atual ministro da Defesa ao presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira que se não houver voto auditável, não haverá eleições no ano que vem.

Notadamente, o duro recado de Braga Netto, reverbera a ideia e o pensamento centralizador e deseducadamente arbitrário e sem modos de Jair Bolsonaro. Do que Bolsonaro tem medo? De enfrentar Lula que está livre, leve e solto, e perder de modo acachapante? É notório o pavor que Bolsonaro sente de Lula e tem pesadelos cada vez que pensa que pode perder a eleição para o ex-presidente.

Será lamentável que qualquer um dos dois seja eleito no ano que vem. Mas voltando à crise provocada por Braga Netto, as entidades e a classe política reagiu com veemência e o desenrolar do problema parece estar longe de ser resolvido Recentemente, Bolsonaro interviu com mão pesada nas Forças Armadas para quem sabe num futuro bem próximo tê-las ao seu lado num possível golpe e firmar-se como ditador, que é o desejo dele, dos seus filhos e dos seus devotos. O Brasil é um país, ou melhor, uma nação promissora mas de reconhecida capacidade de fazer tudo errado em qualquer setor da vida pública.

É inadmissível que a corda seja esticada desta forma por Bolsonaro que parece não se importar com as possíveis consequências do que isto pode significar de fato e de atraso para o país. Tem também o descaso com a pandemia, que já tem cerca de 550 mil mortos e a constante e irritante demora para que a população seja totalmente imunizada.

A saúde brasileira está em colapso e como Bolsonaro não admite nada além do descaso e da desídia para com a população brasileira. A prova disto é o cerco que a CPI da Covid-19, desvendando toda a desfaçatez presidencial e dos seus prepostos medíocres que estão a serviço da morte. Terá a democracia brasileira a robustez da democracia americana, para resistir a Bolsonaro e seus rompantes autoritários e mandá-lo para casa no ano que vem? Será um duro teste e até lá, o Brasil viverá um período de prostração e espanto…

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