FOLHAPRESS – Uma das provas feitas pelos candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste domingo foi a de Linguagens. Na opinião de professores ouvidos pelo GLOBO, a avaliação manteve o grau de dificuldade dos últimos anos. Entre as questões da prova, chamou atenção uma pergunta que abordava um dicionário criado somente para o vocabulário usado por travestis.

De acordo com o professor do Descomplica Eduardo Valladares, a questão pedia que os candidatos decodificasse o que era dito na frase: “Nhai, amapô! Não faça a loka e pague meu acué, deixe de equê se não eu puxo teu picumã! Entendeu as palavras desta frase? Se sim, é porque você manja alguma coisa de pajubá, o ‘dialeto secreto’ dos gays e travestis”.

“A prova não fugiu do padrão e trouxe uma cobrança perto do que é esperado. O aluno que lê bastante, está acostumado a essa cobrança do Enem e fez boa prova’, afirmou.

A prova abordou variações linguísticas, diferentes gêneros textuais— como literário e jornalístico— e trouxe muitas questões de interpretação. Como de costume, o Enem também trouxe usou em sua coletânea temas de interesse social, como racismo e violência contra a mulher. Em uma pergunta sobre verbos no modo imperativo, a prova apresentou uma peça publicitária sobre violência contra a mulher.

“Uma das questões interpretativas utilizou o resumo de um trabalho acadêmico que falava sobre como o negro era visto pela indústria de produtos de beleza, que reforçava a beleza do negro como menor e, por isso, que era necessário usar esses produtos para alcançar um certo padrão. É um texto que se posiciona em relação a uma questão social’, conta o professor do COC, Everton Silva.

Autores como Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Manoel de Barros também apareceram na prova de Linguagens. A avaliação trouxe ainda uma questão sobre a importância do esporte para desenvolver habilidades como trabalho em equipe. Em outra pergunta, o Enem abordou o patrimônio linguístico exigindo do candidato uma análise sobre a permanência de determinado vocabulário na Língua.

“A prova vem num nível similar ao ano passado. A prova do Enem há um bom tempo vem se mostrando conteudista. Em Linguagens sempre carregamos aquele rótulo de ‘é interpretação, não tem o que estudar’. Mas, na verdade, a teoria está ali, mas vinculada ao seu conhecimento de mundo, à capacidade de leitura, à capacidade interpretativa do candidato. Interpretação não é sorte” — diz Priscila Gomes, professora de português do QG do Enem.

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